SINTA-SE EM CASA, FIQUE A VONTADE
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Domingo, 14 de Outubro de 2012
CONTO - 2...MANHA DE DOMINGO

 

 

A mao fria, quase dormente, de tao gelada que estava.

Abriu uma pestana, depois a outra, e recolheu aquela mao para debaixo do cobertor.

Zero graus era quanto marcava o termometro.

Olhou pela vidraca da janela, que lhe trazia o ceu claro, de um azul absoluto.

Do mal, o menos. Nao se adivinhava chuva.

Ja se habituara a temperaturas baixas. Aquela terra era assim, que podia ela fazer?

Aconchegou-se e deixou que a sua mente vagueasse.

Desfilaram na sua frente, outras manhas de domingo, longinquas, amaralecidas pelo tempo.

Fixou-se nas alegres, porque para tristezas, bastava aquelas com que a vida gostava de a presentear.

Como num filme antigo, viu-se novamente em cima daquela mota.

O pai comprara um motao preto, enorme, nunca tinha aparecido, la no bairro, coisa assim.

Soltava um som potente, e toda a gente olhava quando ela passava.

Aos domingos de manha, preparava-se a trouxa, que incluia alguns presentinhos para a avo, e seguiamos viagem.

As bananas.........recordava-se bem, o pai sempre fazia questao de comprar bananas para a sua mae, que tanto tinha penado para o criar, a ele e aos nove irmaos. Ficara viuva a avo, o marido morrera com um tumor na cabeca, e deixara-a a bracos, com uma casinha minuscula, cheia de catraios.

Mulher pequena e magricela, mas nao lhe olhassem ao corpo. A firmeza lia-se-lhe no olhar.

Depois da trouxa preparada, era hora de se acomodarem todos em cima da maquina. O pai `a frente, a seguir a mae, entre eles o mano, que ainda era quase bebe. A ela , sorria ao lembrar-se, cabia-lhe o melhor lugar...na traseira da mota, escarranchada em cima da mala de viagem.

Dali , do seu posto, que ficava a um nivel superior ao dos outros, vislumbrava tudo em redor, e absorvia todos os aromas do seu Alentejo querido, terra do seu coracaozinho de gazela.

Nao esqueceria nunca aquele manto dourado, que se estendia ate a linha do horizonte, para onde quer que a sua cabeca se voltasse. Da superficie dourada, emergiam , aqui e ali, umas manchas vermelhas, de um vermelho vivo, perfeito, como se um Deus invisivel, tivesse, com um pincel muito comprido, dado umas pinceladas, para quebrar a monotonia.

Nao, nao esqueceria o cheiro a quente que vinha da terra, que quase lhe feria as narinas.

Quando era Primavera, ao percorrerem aquele caminho, ficava-lhe impregnado o cheiro das giestas floridas. Jamais encontrara em qualquer outro lugar, aquele cheiro.

Pensava agora, o melhor que lhe ficara da infancia, era aquela especie de comunhao com a natureza, aquela sensacao de ser parte daquele "todo".

Um sorriso aberto estampava-se-lhe na cara, quando, do seu posto de vigia, avistava a igreja que assinalava a casa da avo.

Naquela igreja , ao lado da casinha da avo, reunia-se, ao domingo, todo o povo dos montes das redondezas. O senhor prior vinha celebrar missa.

Era a avo quem cuidava da igreja.

Quando chegavam, a avo nao corria para os abracar, esperava que correcem para ela. Como quem tivesse aprendido, que, se corrermos na direccao do que amamos, podemos perde-lo. Como se tivesse aprendido que, se ficarmos quietinhos e soubermos esperar, a vida faz chegar ate nos, coisas maravilhosas.

Aquela avo...aquela avo nao lhe deixara apenas o nome como heranca. Muito daquela avo corria nas suas veias.

Pensando em veias....finalmente o sangue aquecera dentro daquela mao, que acordara enrregelada.

E as horas...que horas seriam?  Nao ! Dez e meia , ja???

Hora de levantar...

 



publicado por sopa-de-letras às 09:11
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comentários:
De nuno a 14 de Outubro de 2012 às 15:13
olá, lindo texto. Para mãos geladas, nada como bater palmas para as aquecer. Bananas no texto? credo, odeio bananas...lol. tenha um bom Domingo. beijos e um abraço


De sopa-de-letras a 14 de Outubro de 2012 às 19:43
Mais uma vez, obrigada por ler o que escrevo.
Ate sempre


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