SINTA-SE EM CASA, FIQUE A VONTADE
Domingo, 3 de Fevereiro de 2013
A PRIMEIRA MACHADADA

 

 

Ela sentia, sabia, apesar de nao ter uma unica prova, sentia que havia " moura na costa ".

Quando ele jurava ama-la, quase acreditava ser a unica. Quando os corpos se enlacavam e sentia o bater dos dois coracoes, como se fossem um so, rendia-se as evidencias.

Mas quando cada um voltava aos seus afazeres, aquela vozinha irritante sussurava no seu ouvido, e nao a deixava ter paz.

Como era possivel que, aqueles olhos cor de mar, quase transparentes, a enganassem?

Como era possivel que, amando-o ela como amava, fazendo por ele todo o tipo de sacrificios, ele pudesse trai-la?

Aquele era o dia, era o momento em que poderia tirar as coisas a limpo. Agora ou nunca. Ele ia mudar de quartel, vinha de ferias para casa, e quando voltasse iria para outro local treinar para , dai a algumas semanas, ir para a guerra.

Todos os seus pertences vieram para casa com ele. e ela nao perdeu tempo. Virou tudo do avesso, se havia alguma verdade nas suas suspeitas, algo haveria de encontrar.

As suas maos tremiam quando pegaram nos papeis que encontrou escondidos por debaixo do fundo do saco da roupa.

Tentando acalmar o bater do coracao, e inutilmente, organizar os pensamentos, tirou do envelope, ja aberto, a primeira carta, e leu-a. Uma apos outra foi lendo e chorando a magoa profunda que sentia.

Era o principio de um namoro, e a rapariga esperava encontrar-se, pessoalmente, com ele nessa semana. A semana que ele deveria passar com ela e com a filha de ambos, recem nascida. Ele prometera visitar a rapariga , na sua terra, algures na margem sul do Tejo, para conhece-la e ser apresentado `a familia.

Chorou, chorou amargamente. Acalmou-se.

Pegou numa caneta e num papel, tomou nota do nome e morada da rapariga, dobrou as cartas, voltou a coloca-las debaixo do fundo do saco, e tratou de ir lavar as roupas sujas que ele trouxera, para  ela lavar, como era habito sempre que vinha a casa.

Naquele tempo nao havia maquinas la em casa, eram as maos dela que, com apenas dezoito anos, lavavam, coziam, passavam as roupas dele. Nesse dia, enquanto esfregava a roupa na pedra do tanque, as lagrimas corriam de fio, e ia pensando que ele devia estar dentro das roupas, para ser esfregado e batido na pedra do tanque.

Roendo-se toda por dentro, nao o confrontou; calou o seu desgosto, tinha planos.

No dia seguinte, assim que teve oportunidade, escreveu uma longa carta `a rapariga, contando toda a verdade.

Nao julgou, nao ofendeu, nao se lastimou, pois percebera que a rapariga era tao vitima quanto ela, apenas disse a verdade toda.

Passados poucos dias recebia a resposta, algumas palavras de desculpas e , para seu espanto, a foto dele, exactamente aquela que ela mais gostava.

A foto que varias vezes lhe pedira, tamanho postal, onde ele estava lindo, e que sempre se esquivava a dar-lhe.

Nao se conteve, assim que ele entrou em casa, atirou-lhe para cima a carta da rapariga e desfez a foto em pedacos ali mesmo nas trombas dele.

Berrando e chorando despejou-lhe em cima toda a sua ira, deixando-o sem pinga de sangue. Baixou-se, apanhou do chao, os varios pedacos da foto, sentou-se `a mesa com um papel e um tubo de cola, e calmamente foi montando o puzle colando todos os bocadinhos da fotografia no papel. Quando terminou, foi buscar uma tesoura, recortou o papel `a volta da foto. Essa foto ainda hoje esta com ela, embora ele nao esteja, ha ja  tres decadas.

   



publicado por sopa-de-letras às 23:09
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